Anseio ‹ Todos os artigos
Cotidiano

A camisa boa ainda com a etiqueta

Tem gente que guarda o perfume caro, a louça bonita e até o próprio bom humor para uma ocasião que nunca chega. Vale a pena entender por que a ansiedade adora esse hábito.

Blog da AnseioLeitura de ~4 minutos
Camisa dobrada no armário ainda com a etiqueta de preço pendurada

No armário da Marina tem uma camisa azul, ainda com a etiqueta pendurada na manga. Ela comprou há uns dois anos, achou linda na hora, pagou sem pestanejar. E desde então está lá, esperando uma ocasião que justifique usá-la.

Não é só a camisa. É o perfume que ganhou de aniversário e continua lacrado. É o jogo de taças de cristal que só sai quando vem visita importante, e visita importante quase nunca vem. É aquele guardanapo bonito que fica no fundo da gaveta porque os outros, mais simples, servem para o dia a dia.

O que a espera está guardando de verdade

Guardar coisas boas para depois parece só um costume bobo, tipo mania de vó. Mas, olhando com calma, dá pra ver outra coisa morando ali: uma vigilância. Como se usar a coisa boa antes da hora certa fosse um desperdício, um erro, algo que a gente vai lamentar depois.

Essa vigilância tem sotaque de ansiedade. Ela funciona assim: enquanto a coisa boa está guardada, nada pode dar errado com ela. A camisa não pode manchar. O perfume não pode acabar rápido demais. A taça não pode quebrar numa terça-feira qualquer, sem graça, sem motivo nobre o bastante.

Só que aí mora o problema. A vida inteira vira uma sala de espera. E quem fica esperando o momento perfeito geralmente descobre, alguns anos depois, que o momento perfeito não chegou porque ele nunca foi definido direito. Era só um jeito educado de adiar.

Merecer não devia ser tão complicado

Tem uma pergunta que costuma aparecer quando a gente puxa esse fio na terapia: por que a terça-feira comum não merece a camisa boa? Quase sempre a resposta esbarra numa ideia meio torta de merecimento, como se prazer precisasse ser conquistado com algum feito grande.

Reserve a louça fina só pra quando a casa estiver impecável. Use o perfume só quando o dia for importante de verdade. Aproveite o tempo livre só depois que a lista de tarefas zerar, o que, convenhamos, quase nunca acontece.

A ocasião especial que a gente espera às vezes é só a permissão de se sentir bem agora.

Repare que essa lógica é a mesma que faz alguém trabalhar sem parar achando que o descanso precisa ser ganho com sofrimento antes. É controle disfarçado de bom senso. E controle, esse sim, é prato cheio pra ansiedade, que adora ter uma régua pronta pra medir se você já fez o suficiente pra ter direito ao simples.

O corpo também tem armário

Essa mesma engrenagem aparece em coisas menos óbvias. Tem gente que adia uma conversa gostosa com um amigo porque a agenda ainda não está livre o bastante. Tem quem deixe pra rir depois, quando a semana estiver mais leve. O prazer vira sempre uma recompensa condicionada a um estado ideal de coisas, que na prática nunca acontece por inteiro.

E o curioso é que o corpo sente esse adiamento constante como uma espécie de aperto baixinho, quase imperceptível. Uma sensação de estar sempre em modo de espera, nunca de fato instalado no presente. Isso cansa mais do que parece.

Experimento pequeno: escolha uma coisa guardada há mais de seis meses esperando ocasião especial. Use nesta semana, num dia qualquer, sem motivo nenhum. Só para ver o que acontece.

Usar agora, sem pedir licença

Não precisa virar filosofia de vida nem jogar tudo fora de uma vez. É mais simples do que isso: é ir soltando, aos poucos, a régua invisível que decide quando você tem direito ao que é bom.

A Marina, aliás, tirou a etiqueta da camisa numa quinta-feira sem graça nenhuma. Foi trabalhar de camisa nova, sem placa nenhuma, sem post nas redes anunciando a estreia. Disse depois que achou estranho como ninguém percebeu, e como isso, de um jeito bobo, foi um alívio enorme.

Por que a psicoterapia entra aqui

Quando o presente vira um lugar seguro

Um dos trabalhos mais silenciosos da terapia é justamente esse: ajudar a pessoa a perceber quando ela está adiando a própria vida em nome de uma segurança que nunca se completa. Não é sobre convencer ninguém a gastar o perfume todo de uma vez. É sobre entender de onde vem a régua que decide o que se pode aproveitar agora, e ir afrouxando essa régua com calma, até que o hoje comum vire, finalmente, um lugar onde dá pra estar bem.

Leia também

Que tal dar o primeiro passo hoje?

Se você se reconheceu neste texto, começar a terapia pode ser mais simples do que parece. É só uma conversa para entender o seu momento.

Falar com a Anseio no WhatsApp