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Cotidiano

O elogio que você devolve antes de aceitar

Alguém diz algo bonito sobre você e, sem perceber, você já devolveu o embrulho. Vale a pena entender por que isso acontece — e como deixar o elogio ficar, pelo menos um pouco.

Blog da AnseioLeitura de ~3 minutos

Sua colega manda uma mensagem no grupo da equipe: "o relatório ficou ótimo, parabéns". E antes mesmo de terminar de ler, seus dedos já digitam a resposta. "Ah, foi rápido, não teve mistério." Ela nem tinha perguntado se teve mistério.

Isso acontece o tempo todo, em versões pequenas. O bolo que a sogra elogia e você já explica que a receita é fácil, que qualquer um faz. A roupa nova que alguém acha bonita e você conta, na hora, quanto custou de desconto. É quase um reflexo: alguém aponta algo bom em você, e você se apressa em achatar.

O elogio que escorrega

Tem gente que recebe um afago e simplesmente sorri, agradece, segue a conversa. Para quem convive com ansiedade, esse gesto simples costuma vir carregado de uma pressa estranha. É como se a frase gentil pedisse alguma resposta imediata, e a resposta que sai primeiro é sempre a de diminuir.

Desconfio que isso tem a ver com uma lógica bem específica: se eu aceito o elogio, alguém pode esperar que eu repita aquilo sempre. E se um dia eu não conseguir? Melhor já avisar que foi sorte, que foi fácil, que não é bem assim. Fica mais seguro não deixar ninguém apostar alto em você.

Por que aceitar dói um pouco

Aceitar um elogio pede uma pausa. É preciso parar, olhar para a pessoa, e concordar, mesmo que por um segundo, que ela enxergou algo verdadeiro. Para quem viveescaneando riscos e ameaças, parar assim pode dar a sensação de estar baixando a guarda.

Tem também o roteiro antigo de muita gente: crescer ouvindo que se gabar é feio, que humildade é sempre minimizar. Misture isso com uma cabeça ansiosa, que já desconfia de qualquer coisa boa demais para ser verdade, e o resultado é esse hábito de devolver o presente ainda embrulhado.

Aceitar um elogio também é, à sua maneira, um exercício de coragem.

O corpo também recua

Repare da próxima vez: alguém te elogia e seus ombros sobem um pouco, o queixo se abaixa, talvez você desvie o olhar por meio segundo. O corpo faz o mesmo movimento de quando evitamos um confronto. Só que aqui o confronto é com algo bom.

Faz sentido, de um jeito torto. Ansiedade costuma tratar qualquer holofote como perigo, seja ele de crítica ou de admiração. Ficar em evidência, por qualquer motivo, acende o alarme.

Experimente isso: da próxima vez que alguém te elogiar, treine parar em "obrigado" e não completar a frase. Sem "mas", sem explicação, sem desconto. Só o obrigado, sozinho, respirando.

Um jeito de deixar o elogio ficar

Caderno aberto com uma caneta sobre a mesa, iluminado pela manhã

Não precisa virar um exercício solene. Pode ser pequeno, quase bobo: guardar um print de uma mensagem gentil, escrever numa agenda quando alguém disser algo bom sobre um trabalho seu. Não para ficar relendo com vaidade, mas para ter prova, depois, de que aquilo aconteceu e você não inventou.

Uma coisa que ajuda bastante é notar a diferença entre concordar totalmente com um elogio e simplesmente deixá-lo passar sem sabotagem. Você não precisa achar que é a melhor em tudo. Só precisa permitir que, naquele dia, alguém tenha visto algo bom e isso seja, sim, verdade também.

Praticando com quem entende do assunto

Com o tempo, esse hábito de recusar afetos pequenos vai ficando mais leve de perceber e mais fácil de mudar. A gente aprende a notar o momento exato em que os dedos já estão digitando a desculpa, e a escolher, ali, fazer diferente. Não é sobre ficar convencido. É sobre deixar de brigar com as coisas boas que chegam até você.

Por que a psicoterapia entra aqui

Um espaço para praticar o obrigado inteiro

Na terapia, esse padrão de desviar de elogios costuma aparecer bem depressa, muitas vezes na própria relação com o terapeuta. É comum a pessoa minimizar até o progresso que ela mesma conquistou numa sessão. O trabalho ali não é convencer ninguém a se achar incrível, mas ajudar a notar de onde vem essa pressa em diminuir, e criar, aos poucos, um espaço onde reconhecer algo bom em si não precisa doer nem parecer perigoso.

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Se você se reconheceu neste texto, começar a terapia pode ser mais simples do que parece. É só uma conversa para entender o seu momento.

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