Reparei nisso numa quarta qualquer, na fila da lanchonete perto do trabalho. Pedi um sanduíche, sentei, e quando minha colega ainda estava desembrulhando o dela, eu já tinha terminado o meu. Ela nem tinha começado a falar sobre o fim de semana e eu já estava limpando a mesa com o guardanapo.
Quinze minutos de almoço viram cinco
Não é fome. É uma espécie de pressa que mora no corpo antes mesmo de a comida chegar ao prato. Tem gente que mastiga rápido, engole rápido, termina rápido, como se houvesse um cronômetro correndo contra ela. E talvez exista mesmo, só que o cronômetro está na cabeça, não na cozinha.
A ansiedade tem um jeito engraçado de transformar até o almoço numa tarefa a ser concluída. Comer vira item de lista. Risquei, próxima.
O corpo também quer dar conta de tudo

Quando a mente está em alerta, o corpo segue o mesmo ritmo acelerado. Os músculos da mandíbula trabalham mais rápido, a respiração fica mais curta, e aquele momento que devia ser de pausa vira só mais uma corrida silenciosa. Ninguém ensina isso na escola, mas o corpo aprende sozinho a correr quando acha que precisa se proteger de alguma coisa — mesmo que essa coisa seja só o relógio da parede do refeitório.
O resultado é engraçado e um pouco triste ao mesmo tempo: a pessoa fica de barriga cheia, mas não fica satisfeita. Comeu, mas não participou.
A plateia imaginária na mesa
Tem também aquele desconforto de ser a última a terminar. Como se continuar comendo enquanto os outros já guardaram o talher fosse motivo de vergonha. Então a solução vira acelerar ainda mais, só para não ficar exposta por mais dois minutos.
Mas ninguém está cronometrando o seu almoço. Duvido até que exista prêmio para quem termina primeiro.
Um truque bobo que funciona

Terapeutas costumam sugerir coisas simples para interromper esse piloto automático, e uma delas é quase ridícula de tão fácil: largar o talher entre uma garfada e outra. Parece bobagem, mas obriga o corpo a fazer uma pausa que a mente sozinha não pediria.
Outra coisa que ajuda é escolher um prato sem pressa no cardápio, tipo aquele que precisa ser montado aos poucos, com talher de sobremesa, com molho à parte. Dificulta a pressa de propósito.
Devagar não é atraso
Talvez o maior aprendizado seja perceber que devagar não é sinônimo de atrasado. É só outro ritmo, um que combina mais com quem a gente é quando não está correndo de nada.
Desacelerar é também um trabalho de atenção
Na terapia dá para investigar de onde vem essa pressa específica, esse hábito do corpo de correr mesmo quando não há nada te perseguindo. Às vezes a origem está longe da mesa de almoço, em alguma época em que comer rápido era necessário ou seguro. O terapeuta ajuda a notar esses padrões no momento em que acontecem, sem culpa, e a construir, aos poucos, novas formas do corpo confiar que pode ir mais devagar.

