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Cotidiano

O sorriso que fica de plantão

Tem um sorriso que a gente usa pra qualquer pergunta sobre como está indo a vida. Vale a pena descobrir o que ele esconde, e dar uma folga pra ele de vez em quando.

Blog da AnseioLeitura de ~3 minutos
Mesa de festa vazia com balões e luzes, cenário social por trás do sorriso automático

Alguém pergunta como você está e o rosto já responde antes da boca. Um sorriso rápido, quase um reflexo, igual ao de piscar quando um inseto passa perto do olho. Ele aparece mesmo quando a resposta de verdade seria outra, mais comprida, menos confortável de dizer em pé, no corredor, com o café esfriando na mão.

Um músculo que nunca folga

Tem gente que sorri na reunião de segunda-feira, sorri na fila do caixa eletrônico, sorri no churrasco de domingo quando a tia pergunta se o namoro vai bem. É um gesto treinado, quase atlético. E como todo músculo que trabalha demais, ele cansa, só que ninguém costuma reparar nisso, porque por fora parece exatamente o contrário: leveza, simpatia, aquele jeito de quem dá conta de tudo.

A ansiedade gosta de se disfarçar assim. Ela prefere a aparência de controle à confissão de que algo pesa. Então o corpo aprende o atalho: sorrir primeiro, pensar depois, ou nem pensar.

Tudo bem como resposta padrão

Repare na próxima vez que alguém disser ''tudo bem'' sem nem terminar de ouvir a pergunta. É quase automático, como o nome que a gente fala ao telefone. ''Tudo bem'' virou uma senha social, não necessariamente uma informação.

Sorrir também cansa, viu?

Não tem nada de errado em ser educado, em poupar o colega de elevador de um desabafo às oito da manhã. O problema é quando essa resposta automática substitui qualquer resposta verdadeira, até mesmo as que a gente daria pra si mesmo, em silêncio, no quarto.

O preço de representar o tempo todo

Manter a fachada tem um custo que não aparece na hora. Aparece depois, no corpo mole do fim de tarde, naquela vontade súbita de cancelar tudo que resta no dia. É o preço de representar bem demais um papel que ninguém pediu pra você bancar sozinho.

Isso não significa que a pessoa esteja fingindo por maldade ou cálculo. Na maioria das vezes é só hábito, um jeito de atravessar o dia sem complicar a vida dos outros. Só que esse hábito, levado longe demais, também afasta a pessoa de si mesma.

Experimente isso: uma vez por dia, ao ser perguntado como você está, tente responder com uma frase que seja verdadeira de verdade, mesmo que pequena. Não precisa ser um desabafo. Só precisa ser real.

Dar um tempo pro rosto

Tem um momento bom em certos dias: o instante em que a porta de casa fecha e o sorriso de plantão pode finalmente descansar. O rosto relaxa sozinho, quase sem avisar. Vale prestar atenção nesse momento, porque ele mostra a diferença entre o rosto que você mostra e o rosto que você é.

Aprender a mostrar um pouco mais desse segundo rosto pro mundo, aos poucos, sem pressa, é um exercício que vale a pena. Não é sobre deixar de sorrir. É sobre sorrir porque quer, não porque é a única resposta que o corpo sabe dar.

Por que a psicoterapia entra aqui

Um lugar onde o rosto pode descansar

A terapia é, entre outras coisas, um dos poucos espaços da semana onde a resposta automática pode ser deixada de lado. Ali não existe plateia pra agradar nem cara boa pra manter. O terapeuta não está ali pra ouvir que está tudo bem: está ali pra ouvir o resto, o que fica atrás do sorriso. Com o tempo, esse exercício de dizer a verdade num lugar seguro costuma vazar pra fora da sala, um pouco por vez, até que sorrir volte a ser escolha, não plantão.

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